Santa Casa de Três Pontas recebeu recursos da estatal para ampliar setor da maternidade
Estatal admite que, a pedido de deputados, repassou R$ 150 mil, sem necessidade de concorrência
A estatal Furnas Centrais Elétricas assumiu, na quinta-feira (5), que repassou R$ 150 mil à Santa Casa de Misericórdia de Três Pontas, no Sul de Minas, a pedido dos deputados Antônio Júlio (PMDB) e Anderson Adauto (PMDB). Questionada se houve algum tipo de convênio ou seleção que possibilitasse o repasse, a estatal de energia se recusou a responder. Por meio de nota, disse apenas que existiu o repasse.
"O pedido é datado de 3 de janeiro de 2002 e foi assinado por Raul Assunção Pinto, provedor da Santa Casa; Glimaldo Paiva, coordenador clínico; Anderson Adauto, então deputado estadual; e Antônio Julio, na ocasião presidente da Assembleia Legislativa de MG", diz trecho da nota. Segundo a assessoria de Furnas, o valor, inicialmente solicitado, foi de R$ 300 mil. A empresa, ainda, informa que existe um programa social de doação a municípios vizinhos, porém, não disse se a Santa Casa está incluída.
A Santa Casa também não conseguiu apresentar cópia de convênio que legalizaria a doação de R$ 150 mil de Furnas à entidade filantrópica. Também não existe na instituição qualquer documento referente ao processo de seleção para recebimento de recursos públicos da estatal. Segundo o administrador geral do hospital, José Rogério Abreu, a Santa Casal possui em seus arquivos o recibo emitido à Furnas e o comprovante de depósito, porém, não existem outros documentos que comprovariam os trâmites usuais da operação.
O deputado estadual Antônio Júlio disse que o recurso foi intermediado por ele, em 2002, diretamente com o ex-presidente da estatal, Dimas Fabiano Toledo. Por isso, seu nome consta da 'Lista de Furnas'. Para que uma entidade filantrópica receba recursos da estatal, faz-se necessário um cadastro, conforme normas de um edital publicado no 'Diário Oficial da União'. Depois do primeiro passo, ela ainda concorre com outras entidades até ser selecionada. O último passo é a assinatura do convênio e o repasse da verba. No caso da Santa Casa, Antônio Júlio sustenta que foi ao ex-dirigente, no período eleitoral, e pediu a liberação do recurso. Em seguida, o dinheiro caiu na conta do hospital. "Este recurso entrou aqui no hospital. Recebemos R$ 150 mil, através de Furnas. Temos na nossa contabilidade o recibo. A origem, não vamos discutir. Vamos esperar a Justiça. Isso não é da minha gestão, mas não encontrei outros documentos", afirmou José Rogério Abreu, que disse esperar pelo Judiciário para prestar esclarecimentos. A verba foi usada na ampliação da maternidade do hospital.
O Ministério Público Federal apura a 'Lista de Furnas' em um inquérito aberto na unidade do Rio de Janeiro. O documento foi divulgado em 2006 pelo lobista Nilton Monteiro, hoje, preso em Belo Horizonte. A Polícia Federal (PF) atestou a autenticidade da lista. Nela, constam os nomes de 156 políticos, especialmente do PSDB e DEM, que teriam recebido recursos de um suposto caixa dois de empresas estatais. Entre eles, está Antônio Júlio com o valor de R$ 150 mil.
O recibo emitido pela Santa Casa data de julho de 2002. A 'Lista de Furnas' tem a assinatura de Dimas Toledo com data de novembro do mesmo ano. Por meio de advogado, Toledo nega que tenha assinado ou confeccionado o documento, mesmo após o atestado de peritos da PF. Antônio Júlio sustenta que negociou o repasse com Toledo, no Rio de Janeiro. Dimas foi nomeado diretor de engenharia de Furnas em 1995. Permaneceu na empresa até 2005, demitido pelo ex-presidente Lula.
Fonte:hojeemdia