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Brigadista voluntário defende matas e serras mineiras

O poeta brasileiro Augusto dos Anjos retratou no poema 'A árvore da serra' a dor de um menino ao ver seu pai se preparar para cortar à machadadas uma delas. Emocionado, o menino contesta o pai:

“Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...”

Da mesma forma, a visão de um incêndio desenfreado queimando dezenas de quilômetros quadrados de serras e matas traz a Nilson das Mercês, de 49 anos, um sentimento de tristeza e de impotência. Desde criança, o eletricista industrial passou todos seus meses de férias em vilarejos próximos à Mariana e Ponte Nova, na região Central do estado, acampando, nadando em riachos, passeando pelo mato. A 'roça' lhe encantava o coração e no mato ele se sentia mais à vontade. Quem sabe por isso, o fogo tenha se tornado um vilão particular para ele.

Mas, em 2006, como em uma história feliz escrita pela vida, Nilson descobriu a possibilidade de lutar contra seu rival e quebrar a impotência que sentia ao vê-lo destruir suas amadas matas e florestas. “É como se estivessem escrevendo uma história em que tudo foi dando certo. Meio sem querer, eu conheci a ONG Brigada 1, me inscrevi como voluntário e, em junho do mesmo ano, combati meu primeiro incêndio”, diz.

Na época, além dos bicos como eletricista, ele também era porteiro terceirizado e foi designado, coincidentemente, para o Parque Estadual do Rola Moça, em Nova Lima, na Grande BH. Foi de lá que ele viu, ainda durante o horário de trabalho, a queimada que se tornaria a primeira enfrentada por ele como brigadista. “Fui o primeiro a chegar. Nunca tinha visto fogo à noite e era muito bonito. A adrenalina subiu e eu só pensava: 'você tem que conseguir'. Comecei às 19h e só saí às 2h. Fui para casa dormir e voltei, de novo, ao meio-dia”, relata, ainda cheio de entusiasmo.

Nilson não mantém um banco de dados, mas se for supor, ele acredita ter participado de mais de 100 combates, em diferentes partes do estado. E, apesar de cada um lhe trazer uma experiência marcante e nova, foi naquele primeiro, no Morro do Cachimbo, em Nova Lima, que ele sentiu a importância do seu papel. “No final da tarde, quando tudo acabou, vi no alto de um rochedo um gavião muito bonito, que deu um piado alto, lindo e triste”, conta. “Ele tinha perdido a fêmea e um filhote, que achamos depois. Foi naquela hora que apareceu a força e vontade de fazer mais. Da mesma forma que perdemos alguém, eles também perdem e quando você vê isso, não tem jeito. Você toma gosto e não para mais”, completa.

Se para quem vê de longe uma serra sendo queimada já é triste, para ele e outros brigadistas a cena é muito mais trágica e real. Se o grito daquele gavião despertou algo no âmago do eletricista, ele também era um sinal de que cenas semelhantes estariam por vir. “Acho que o valor do nosso trabalho é que não é algo só para a nossa satisfação pessoal, mas é para toda uma comunidade. É para a sociedade. Até para quem não valoriza isso”.

Quando está lá, ele conta que não vê o tempo passar. O combate à incêndios exige completo foco do brigadista que precisa estar atento à seus colegas, às regras de segurança e ao trajeto do fogo. Nesses momentos, se esquece de horário de trabalho, família, tudo. “Você toma uma ingestão de ânimo até terminar”.

Se para a esposa, o trabalho voluntário pode ser um incômodo, pelo tempo que ele passa longe de casa, para o pai de Nilson, o 'hobby' do filho é um motivo de orgulho – e também de preocupação. “Eu me sinto como um herói”, destaca. “É bom saber que, por nossa causa, a perda não foi total e conseguimos manter uma parte da natureza preservada. Isso é gratificante e compensa as perdas que tivemos”.

Felizmente, Nilson arruma tempo para conciliar o voluntariado com a família e o emprego como auxiliar administrativo em uma escola estadual. “A gente tem que se adequar. Nunca tive problemas por isso. Mas dependendo da situação, eu viajo e já aviso no trabalho que vou demorar. Falam que eu sou doido, mas acho que as pessoas entendem e que minha família tem orgulho de mim”.

Os colegas brigadistas compartilham o orgulho. Rodrigo Belo Bueno é um dos fundadores da Brigada 1 e hoje atua como diretor do setor de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais e Eventos Críticos do governo de Minas e acompanha o trabalho de Nilson desde sua entrada na instituição.

Parte de um grupo de cerca de 80 pessoas espalhadas pelo estado, Nilson poderia até ser visto como apenas mais um na multidão. Por outra perspectiva, cada parte desses 80 se torna especial frente à imensidão de serras e cerrado espalhados por Minas Gerais, ameaçadas frequentemente pelo fogo. “Em épocas críticas, a gente tem falta de pessoal. Por isso, é importante ter mais gente capacitada. Pessoas interessadas em ser voluntários e cidadãos”, afirma Rodrigo. Diante disso, a dedicação de Nilson é mais que exemplar. “Ele é uma pessoa extremamente engajada e com uma vontade descomunal de ajudar”.








Fonte:Gabriella Pacheco/www.dzai.com.br