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A história de um engraxate itinerante que colocou Lavras em seu roteiro


Gilson Mota Correia, o engraxate itinerante,  estava na praça Augusto Silva no dia 7 de Setembro. Fotos: Jornal de Lavras


O mundo mudou, mudou numa velocidade estonteante, antes o que era profissão hoje já nem existe mais, um exemplo disso é a figura do vendedor de enciclopédia, aquele homem bem vestido que visitava as casas carregando uma pasta enorme, que na sala de visita de nossa casa abria um mostruário colorido, cheio de figuras bonitas. Ele passava horas negociando com os nossos pais. Esta figura foi substituída pelo download, a enciclopédia agora está ao alcance do nosso dedo, muito mais completa que as impressas.

Outras profissões ainda resistem, são profissões que estão na "beira da morte", como o relojoeiro, o alfaiate e o engraxate. Ainda existem alguns relojoeiros e alfaiates em Lavras, mas em breve eles infelizmente não existirão mais. Quanto aos engraxates eles ainda resistem, na cidade tem alguns, são poucos, mas ainda tem, são jovens adolescentes.

Mas há duas semanas um engraxate adulto apareceu na cidade, isso chamou a atenção, porque engraxate adulto deixou de existir há mais de dez anos em Lavras. Ele chamou tanto a atenção que aguçou a nossa curiosidade e a reportagem do Jornal de Lavras conversou com ele na manhã do dia 7 de setembro, na hora da Parada da Independência.

Ele é Gilson Mota Correia, carioca de Bom Jesus do Itabaporana, no norte do Estado do Rio de Janeiro, na divisa com o Estado do Espírito Santo, uma cidade com menos de 35 mil habitantes.

Gilson contou que é engraxate desde menino, que ganhava dinheiro com a profissão, mas com o correr dos anos, os tênis e as vendas do produtos que são usados pelos engraxates nos supermercados estão, praticamente, extinguindo a profissão, "uma das mais elegantes", disse ele.

Gilson lembrou que nenhum grande aeroporto do Brasil tinha menos que dez engraxates, todos vestidos com elegância, uniformizados. Percebendo que a profissão está acabando, Gilson disse que mudou radicalmente sua vida e se tornou um "engraxate itinerante", uma espécie de nômade.

Gilson pegou estrada e viaja pelo Brasil engraxando. Ele estava em Teixeira de Freitas, na Bahia, de lá foi para Vitória da Conquista, depois Campos Salles, Medina, Padre Paraíso, Itabacori, Teófilo Ottoni, Frei Inocêncio, João Monlevade, Nova Era, Betim, Belo Horizonte, Congonhas, São João del-Rei e Lavras. Daqui ele disse que seguirá para São Sebastião do Paraíso.

Segundo ele, sua parada é de cerca de duas semanas em cada cidade, mas em Lavras ele pretende ficar mais alguns dias, isso porque, segundo ele, "a cidade é especial", disse que é especial não porque tem muito serviço, mas pelo povo. "Serviço aqui não tem muito não, nas cidades pequenas a praça é melhor", disse. Gilson contou que até já fez amigos na cidade e citou um: Renato Corrêa, que o entrevistou em seu programa.

"Pretendo ficar aqui mais alguns dias, gostei muito, mas muito mesmo desta cidade, o seu povo é um povo bom, um povo especial".

Questionado se era evangélico, já que seu equipamento tem mensagens da bíblia, ele respondeu que não, que era espírita, mas esclareceu sobre as mensagens: "Tudo que difunde a palavra de Deus é importante e merece o meu respeito".

Apenas para registro, os engraxates de Lavras eram, no passado, funcionários das barbearias, das tinturarias, dos hotéis e dos bares elegantes da cidade. O primeiro engraxate autônomo de Lavras foi Paulino Marcos. No dia 15 de março de 1910, um jornal da cidade estampou a seguinte notícia: "Surge uma novidade nas ruas de Lavras, sobretudo na região central, novidade esta privilégio apenas dos grandes centros: trata-se do primeiro engraxate autônomo. O pioneiro é Paulino Marcos, o primeiro engraxate ambulante de Lavras".

Segundo consta na história do município, o engraxate Paulino Marcos recebeu o equipamento de presente de um "viajante" português da Companhia Federal de Fundição, do Rio de Janeiro. Paulino Marcos chegou até mesmo a anunciar seus serviços em jornais da cidade. Em 1918, publicou no "Almanack de Lavras" a seguinte propaganda: "Quereis um calçado bem engraxado? Procure o Paulino Marcos, o popularissimo, no Bar do Internacional."

Paulino Marcos era uma figura respeitada na cidade, quando morreu em 29 de março de 1922, mereceu a seguinte reportagem no jornal A Gazeta: "Ele foi o primeiro engraxate de Lavras. Há doze anos passado muniu-se das suas escovas, da sua caixa, das suas latas de graxas e introduziu em nossa terra esse pequeno melhoramento. Humilde e bom, conquistou em todas as classes sociais as mais sinceras simpatia.
Por isso, seu enterro, quinta finda, compareceram lavrenses que representam a nossa sociedade em todas as esferas: a classe comercial, a classe operária, a magistratura, havia em todas as manifestações da inteligência e do trabalho.

A Banda Municipal, corporação que Paulino amava com entusiasmo, lá esteve, na homenagem derradeira ao companheiro desaparecido.
E, singelo, como tinha sido a sua vida de bom, o seu caixão baixou a sepultura, naquela tarde triste. É mais um lavrense humilde e querido que se foi". 




Fonte:Jornal de Lavras
 

Site Terra publica matéria com lavrense que vive em São Paulo

Há 40 anos na praça da Sé, Sandoval Rodrigues já perdeu vários colegas de trabalho. Foto: Devanir Amâncio/vc repórter

O site Terra divulgou na segunda-feira, dia16, uma matéria escrita por um internauta para a coluna "Você Repórter", sobre a vida dos engraxates na capital paulista. O internauta Devanir Amâncio encontrou um engraxate de 84 anos que vive da profissão há 40 anos. O interessante da matéria é que ele é lavrense.

Abaixo a matéria na íntegra extraída do site Terra.

Um serviço que cada vez mais perde clientela. Esta é a realidade de quem trabalha como engraxate na Praça da Sé, no centro de São Paulo. Com apenas 11 profissionais em um lugar que já contou com 38, a praça retrata como a profissão vai caindo cada vez mais no esquecimento.

Antigamente a situação era diferente. Há 40 anos, quando o mineiro Sandoval Rodrigues chegou ao centro da cidade, havia muito trabalho. "Eu chegava na Sé às 6h e já tinha fila para engraxar. Ia embora às 23h e ainda deixava cliente na mão", lembra, de forma saudosista, o senhor de 84 anos.

Rodrigues conta que entrou na profissão por acaso. Vindo de Lavras, no Sul de Minas Gerais, demorou a encontrar emprego em São Paulo e acabou recebendo a dica de que poderia trabalhar como engraxate quando passava por uma padaria. Havia, lhe disseram, muita gente seguindo essa vida e ganhando dinheiro. Aos 40 anos aprendeu a nova função e não parou mais. "Eu estou sempre no meu lugar, em frente a Barão de Paranapiacaba. Só não vou trabalhar quando chove".

E foi assim que Sandoval foi resistindo ao tempo. Passou pela "época boa", quando engraxava sapatos de 30 clientes por dia e chegou à "geração tênis", perdendo a clientela para os novos calçados. "As ruas asfaltadas também contribuíram. Antes o pessoal vinha com o sapato sujo de lama e eu já limpava, agora não tem mais isso", lembra.
Foi com o dinheiro do engraxe que Sandoval conseguiu cuidar da mulher e criar a filha. Também comprou a própria casa em Ermelino Matarazzo, zona leste da cidade.

Hoje, o engraxate chega a passar dias sem atender ninguém. "Às vezes aparece um ou outro, mas tem dias que eu fico lá sem fazer nada", lamenta o idoso, que cobra há 17 anos o mesmo preço pelo engraxe: R$ 5.
Das muitas histórias que viu, Sandoval lembra do dia em que teve a comida roubada. "Sempre levo minha marmita para o trabalho. Um dia tinha deixado para esquentar e virei às costas; quando voltei, vi um homem levando minha comida embora", conta, rindo.
Sem perder o bom humor, o engraxate sabe que sua profissão está sumindo. "Há uns anos éramos 18, morreram sete e ninguém entrou no lugar. Então, assim vai. Daqui a pouco é minha vez", conta referindo-se à turma das antigas.

Procurada pelo Terra, a Subprefeitura da Sé não soube informar quantos engraxates existem no centro de São Paulo, nem qual é o procedimento atual para conseguir uma autorização de trabalho na região. O órgão afirmou, no entanto, que existem dois projetos na Câmara Municipal para regularizar a situação dos engraxates na cidade, mas sem previsão de vigorar.

O internauta Devanir Amâncio, de São Paulo (SP), participou do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra.







Fonte: Jornal de Lavras