Solidariedade, amor aos bens culturais e pedido de mais ações preventivas. Os estragos causados pela chuva, na madrugada de quarta-feira de cinzas, na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, mostraram, além da fragilidade das construções coloniais, a força da comunidade na hora de defender seu patrimônio. Ao saber que parte da estrutura de adobe e taipa de pilão havia desabado, muitos moradores procuraram a paróquia e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para dar a sua contribuição.
“A população de São João del-Rei é muito consciente da importância de seu conjunto arquitetônico e acervo artístico. Teve gente que doou tijolos de adobe para reconstituir a parede e especialistas compareceram, de forma voluntária e rápida, para dar apoio”, conta o chefe do escritório técnico do Iphan, arquiteto Mário Antônio Ferrari Felisberto.
Residente nas proximidades da catedral, construída no século 18, no Centro, o professor e artesão Edmar Luiz Batista doou uma pilha de adobe que haviam pertencido a uma antiga construção. “Fui batizado na Nossa Senhora do Pilar, uma igreja que é referência para todos nós”, disse Edmar. No entanto, ele lamenta a falta de um trabalho preventivo para garantir a integridade do monumento, palco das celebrações da semana santa e outras cerimônias. “A gente vê as calhas sujas e cheias de mato. Então, quando vem a chuva, os transtornos aumentam. Uma ação desse tipo não demanda muito dinheiro, é preciso que as autoridades do patrimônio e da igreja fiquem atentas e façam a manutenção”, diz Edmar.
O restauradores Carlos Magno Araújo e Edmilson Barreto Marques cederam ferramentas, puseram à disposição do Iphan e da paróquia o carpinteiro de sua empresa e conseguiram as escoras de eucalipto para a parede. “Ficamos muito preocupados com a situação, ainda mais por ser uma quarta-feira de cinzas. Vimos que as pessoas na catedral estavam assustadas, e o Iphan, com pouca gente. Como temos experiência no setor, ajudamos nas providências. Agimos com solidariedade”, conta Carlos Magno, que, a exemplo de Edmar, foi batizado na matriz. Ele também lamenta a falta de providências, ao longo do ano, para fazer a manutenção correta das construções coloniais. No caso específico da catedral, recomenda uma restauração completa, pois há problemas no telhado, excesso de madeiras na cobertura e peças degradadas.
Emergência
Conforme o Iphan, os reparos na parede externa da catedral vão começar na segunda-feira e serão bancados pela paróquia. Quem passa na rua já pode ver o andaime, montado diante da área atingida – cerca de três metros quadrados, com profundidade média de 20 centímetros. Para evitar maiores danos, o local foi coberto com uma lona. Tijolos de adobe que sobraram dos consertos na Matriz do Senhor Bom Jesus do Monte, no Bairro do Senhor dos Montes, em área tombada pelo Iphan, também serão usados nas obras de emergência, que vão manter o sistema construtivo original, inclusive com uso da terra que soltou da parede. “Prestaremos toda a orientação técnica na reconstrução a fim de preservar a integridade do bem, seguindo as normas de conservação de bens históricos”, diz o arquiteto.
Fonte:em.com.br