Tédio é a forma de o cérebro nos mandar fazer outra coisa


Nova York, EUA. Às vezes, mesmo com ferramentas como revistas, livros, videogames e smartphones, ainda é difícil afastar o tédio. Porém, cada vez mais, acadêmicos e especialistas no desenvolvimento infantil estão se manifestando em defesa dessa sensação. Segundo eles, é normal que adultos e crianças se sintam entediados algumas vezes, já que o tédio força o cérebro a fugir por tangentes interessantes, talvez, alimentando a criatividade.

Também porque a maior parte de nós está constantemente ligada em uma tela durante a maior parte do dia, nós não experimentamos os benefícios do tédio.

Esse sentimento não é um fenômeno recente. De acordo com o professor de história grega e romana na Universidade de Calgary, no Canadá, Peter Toohey, indivíduos das civilizações antigas também se chateavam quando não conseguiam algo interessante para fazer. "Existem grafites latinos sobre o tema nas paredes do sítio arqueológico de Pompeia, na Itália, que datam do século I", diz.

Há também a questão de como se define o tédio. O problema, segundo o professor da Universidade York, em Ontário, John D. Eastwood, é que o sentimento tem sido definido e discutido de várias formas diferentes. Depois de analisar a literatura de pesquisa sobre o tema e de apresentar a ideia para um grupo focal de cerca de cem pessoas, Eastwood e seus colegas definiram o tédio como uma experiência de "querer, mas não conseguir se envolver em uma atividade satisfatória".

Em determinadas ocasiões, segundo o professor de psicologia da Universidade de West Florida Stephen Vodanovich, o tédio pode trazer malefícios, já que, em casos extremos, pesquisas mostram que pode levar as pessoas a se exporem a absurdos riscos físicos, apostar em jogos de azar ou ingressar no uso de substâncias ilícitas como forma de aliviar a sensação.

Por outro lado, "o tédio é a forma de o cérebro dizer que você deveria estar fazendo outra coisa. Mas o cérebro nem sempre sabe a coisa mais apropriada a se fazer. Se você está entediado e usa essa energia para tocar violão e cozinhar, isso vai te fazer feliz. Já se você assistir à TV, isso pode te deixar feliz no curto prazo, mas não no longo prazo", diz o professor de psicologia da Universidade de Nova York Gary Marcus.

Assim, se você der um tablet a uma criança entediada, ela pode se distrair temporariamente, mas não terá aprendido a se autorregular, como diz o professor de neurociência da Universidade de Guelph, no Canadá, Mark J. Fenske. "Essa autorregulação se transfere de uma situação para a outra. Assim, a criança não só deixa de aprender a se entreter como tem menos autocontrole em outras áreas", declara.
Para balancear as coisas, Eastwood ensina: "O tédio é uma sensação inquietante de estar conectado a alguma coisa significativa". O que as pessoas estão buscando, ele diz, é uma forma de se desligar e aproveitar o tempo. "Em um ambiente em que somos constantemente superestimulados, é difícil se envolver quando o barulho cessa", analisa.

Falta de atenção é desculpa

Nova York. O que diferencia o tédio da apatia, segundo o professor de psicologia da Universidade de York, no Canadá, John D. Eastwood, é que a pessoa não está envolvida com uma atividade, mas gostaria de estar. Na apatia, não há uma necessidade de fazer alguma coisa.

Às vezes, pensamos que estamos entediados, quando estamos apenas com uma dificuldade de concentração. No estudo "The unengaged mind: Definign boredom in terms of attention" (ou A mente não envolvida: Definindo o tédio em termos da atenção), o pesquisador lembra um experimento anterior que distraiu pessoas ouvindo a leitura de um artigo de uma revista. Quem foi distraído e ficou desconcentrado atribuiu essa dificuldade ao tédio.

Quando você está tentando manter o foco em uma tarefa difícil ou desafiadora, a interrupção da concentração pode levar ao tédio, de acordo com o professor-adjunto de psicologia da Universidade de Guelph, no Canadá, Mark J. Fenske. Por outro lado, quando você está fazendo uma tarefa chata, "como observar peças com defeito em uma linha de produção, por exemplo, uma música para distrair pode ajudar a não ficar entediado", ensina. Além disso, agitar pés e mãos, gestos que são frequentemente interpretados como sinais de tédio, podem combatê-lo, já que ajudam a pessoa a se manter mais alerta do ponto de vista físico. "Pesquisas mostram que crianças que podem se agitar em sala de aula aprendem mais e retêm mais informações do que aquelas que são forçadas a se manter quietas", relata.  (AT/NYT)







Fonte: O Tempo

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