Um caminhão Ford 1936, que já percorreu com valentia pelo menos 200 cidades de Minas Gerais desde 2003, leva muita diversão para gente de todas as idades. Além de servir como meio de transporte, ele é palco, cenário e camarim da Cia. Fiorini. “A partir do momento em que entro nele e saio estrada afora, é como se me transportasse para outro mundo. Quando o caminhão colorido chega na cidade, vira um alvoroço. A criançada fica louca. Durante as apresentações mesmo o público se debruça nele, quer literalmente entrar na história da peça enquanto ela está sendo encenada. O caminhãozinho realmente tem o seu apelo, e a gente não liga”, comenta o patriarca da trupe, Gianfranco Fiorini.
Uma das cenas mais marcantes ao longo dessa década de trajetória ocorreu em Guanhães, no Vale do Rio Doce, como lembra Gianfranco. O caminhão passou em cima de um quebra-mola na entrada do município e no acostamento havia uma senhora com três crianças. “De repente, uma das meninas começou a pular freneticamente quando nos viu e disse: ‘Moço, me dá esse caminhão pra mim!’. Aquilo foi emocionante”, recorda.
O casal Fiorini – ele luthier, ela professora de belas-artes – sempre foi apaixonado por teatro e, um belo dia, resolveu montar a própria companhia. Desde o começo, a ideia era ter o espírito mambembe e, por isso, adquiriram o caminhãozinho. A intenção, na verdade, era comprar uma Vemaguet, perua produzida entre 1956 a 1967. Mas a foto do Ford estampada nos classificados do Estado de Minas chamou a atenção de Gianfranco Fiorini. “Estava atrás de uma Vemaguet quando, de repente, vi a foto de um caminhãozinho. E geralmente esses anúncios não têm imagens, por isso fiquei com aquilo na cabeça. Entrei em contato com o proprietário, o Pacífico Mascarenhas (compositor, empresário e colecionador de veículos antigos). Foi uma negociação grande e quando ele percebeu o nosso objetivo, no que a gente iria transformar aquele caminhão, aí finalmente nos vendeu”, conta Gianfranco.
Estrela de cinema
O veículo era quase uma sucata. Bastante deteriorado, teve de ser reconstruído, como ressalta Bernadete Fiorini. O caminhão, aliás, já havia participado de um dos longas-metragens infantis mais queridos pelo público, A dança dos bonecos, do cineasta Helvécio Ratton. “Daquele veículo antigo, que participou do filme, só restou a carcaça. Ele estava apodrecendo. A gente teve que praticamente construir um novo caminhão em um período de quatro anos. Trocamos tudo. E eu, que fui a responsável pela pintura do baú, quis prestar uma homenagem ao Ratton. Fiz uma releitura de uma das imagens que o veículo estampava no filme, uma cena de Paris, e a frente dele, que é uma aurora”, conta Bernadete.
O mais curioso é que 20 anos depois da estreia nas telonas, o caminhão participou de outra produção cinematográfica do mesmo diretor, Pequenas histórias, em que a atriz Marieta Severa interpreta o papel de uma contadora de histórias do interior. “Uma das poucas coisas que restou do caminhãozinho original foi uma janela que estava intacta e tinha a imagem do Mr. Kapa, o personagem do Wilson Grey em A dança dos bonecos. A gente acabou dando-a de presente para o Ratton”, revela Bernadete, que costuma escrever os espetáculos do grupo.
Aliás, todos os integrantes confeccionam tudo que é utilizado nos espetáculos, como os cenários, figurinos e bonecos. Tanto é que a equipe também promove oficinas de iniciação às artes circenses, construção de bonecos e cenários e, principalmente, de objetos folclóricos e contemporâneos. “Nem todo trabalho nosso é externo, só encenação. A gente passa muito tempo também nos ateliês produzindo o material que é utilizado nas peças. Mas, claro, viajar é muito bacana e sempre foi uma diversão pra gente desde criança”, comenta a caçula da Fiorini, Laura Fiorini, de 16 anos, que já aos 6 dava seus primeiros passos no teatro.
Helena, a irmã do meio, hoje com 21, garante que fazer parte do grupo nunca atrapalhou os estudos e que sair rodando por Minas Gerais – somente uma vez a Fiorini se apresentou fora do estado, no Espírito Santo – é um grande prazer, ainda mais com a família e os amigos. “É um trabalho bem lúdico, espontâneo, que mistura teatro, circo, literatura. A alegria nos olhos das pessoas quando nos veem, ainda mais das crianças, é muito bacana. Elas ficam hipnotizadas”, salienta a jovem atriz.
E assim como está na pintura que adorna a lateral do caminhão (uma rosa dos ventos cujos pontos cardeais são sonho, fantasia, felicidade e alegria), a Cia. Fiorini segue encantando as Gerais.
Fonte: Estado de Minas









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